Quando “o melhor” significa dizer adeus


O hipismo é um esporte que dependemos de outro ser para realiza-lo. Um atleta profissional, um instrutor ou comerciante de cavalos em geral possuem milhares de cavalos em suas carreiras. Mas o cavalo para um atleta amador, em geral é diferente. Os cavaleiros amadores conhecem e lembram de todos seus cavalos e, em geral, não possuem tantos cavalos ao longe de sua carreira. Pelo menos, para mim é assim.

Os cavalos, na minha concepção, são muito mais do que um simples “animal de competição”. Eu os tenho como verdadeiros amigos. Uma das coisas que eu mais gosto nos cavalos é que com um olhar eles compreendem como estamos e transmitem como estão. Conseguimos então nos comunicar sem dizer absolutamente nenhuma palavra. Gosto de conhecer cada cavalo, descobrir do que ele gosta e não gosta, passar o tempo ao lado deles, limpar, cuidar……e ver que aos poucos nós nos tornamos amigos.

Mas associar essa amizade com o esporte nem sempre é fácil. Isso porque, muitas vezes, precisamos fazer escolhas difíceis e muitas vezes, para crescermos no esporte é necessário realizarmos concessões.

Recentemente eu tive que fazer uma dessas escolhas e não é nada fácil, nunca é. Ia escrever sobre ela, por ter sido a última. Mas antes de começar a escrever, lembrei que já tinha feito uma escolha desse tipo……e merecia ser contada. Talvez porque eu tenha passado nove anos ao lado do meu amigo, mas conhecesse ele desde os três.

Eu ganhei o Nobel de presente quando tinha decidido parar de montar. Eu recebi o telefonema do meu tio avô Milton dizendo que queria me dar de presente um cavalo. Então eu comprei ele de um amigo muito querido, o Diego, que comprou ele em um leilão quando era ainda potro. Pela proximidade da nossa amizade, quando ele foi montar na hípica onde monto pediu que sempre que ele faltasse eu o montasse. Então acompanhei de pertinho toda trajetória do Nobel.

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Ele era um cavalo tão dengoso na baia que mais parecia um cachorrinho. O Diego mimava ele muito, e ele sempre mereceu todos esses mimos. Uma vez quando ele foi viajar por três meses me encheu de recomendações. Foram tantas que eu quase tive que pegar um bloquinho par anotar. Mas eu sempre procurei fazer tudo direitinho. Assim, quando Diego precisou parar de montar para se dedicar a faculdade ele me fer um pedido especial: “compra o Nobel, eu quero muito que você fique com ele”. Mas na época era impossível eu ter um cavalo como o Nobel. E ele ficou a venda por mais de um ano…..até que eu o ganhei de presente.

Imagina a minha alegria em poder ganhar o Nobel, era quase como ganhar um prêmio Nobel, mas mim era ainda mais……era a realização de um sonho ter o Royal Nobel Pioneiro (nome dele de registro). Na semana seguinte que comprei já participei de um campeonato brasileiro de amazonas com um excelente resultado. Fizemos só uma falta no último dia. E assim fomos nos conhecendo melhor e aprimorando o nosso conjunto.

Como toda boa história, nem tudo foi perfeito…..nós tínhamos uma certa incompatibilidade de “timing”. Porque na maioria as vezes que eu podia competir, ele se machucava, e quando ele podia eu tinha que estudar para a faculdade. Para vocês terem uma ideia, quando eu comecei a fazer a categoria que eu sempre quis, saltei prova no final de semana e estava muito feliz, na terça feira ele teve que ser operado de uma torção de intestino. Quando ele se recuperou eu estava no último semestre da faculdade, ou seja, não preciso nem comentar como foi corrido fazer as matérias, mais o trabalho de conclusão de curso……Eu fui tão pouco na hípica nesse período que dediquei a conclusão do meu trabalho final, além da minha família é claro, “ao Nobel pelas minhas constantes ausências”.

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Após terminar o curso e arrumar um emprego, quando eu retomei a montá-lo, ele não tinha mais o mesmo vigor e performance. Então, por todo amor que eu tinha por ele decidi continuar a montar ele mesmo em categorias mais baixas. E foi muito legal. Estar com ele é tudo o que importava para mim naquela época.

Mas após mais um ano de amizade juntos, ele começou a ter dores na mão esquerda. E apesar dos tratamentos que eu fazia nele, não surtiam uma melhora. Então eu chamei o veterinário Thomáz Montello, na época veterinário da equipe olímpica do Brasil para dar uma olhada no que estava acontecendo. E ele diagnosticou que seria necessário realizar uma cirurgia no tendão (Não me perguntem mais especificamente porque eu não lembro). Na época eu poderei com ele que o Nobel já estava com dezoito anos. Ele me explicou de todos os riscos……..e após ponderar bastante, eu tive que fazer uma decisão.

Muitos talvez nunca compreendam totalmente as minhas razões, mas para mim, de coração, eu realmente o que entendi ser melhor para nós dois. Pela idade que ele já estava e como ainda existia uma chance de ele não se recuperar eu não pude ficar mais com ele. E com o coração partido dei ele para uma pessoa que se comprometeu a realizar a cirurgia e depois de um tempo o aposentou. Ainda tenho notícias dele e espero que ele esteja sempre bem. Mas a saudade vai sempre existir, como um amigo que mora distante.

Texto escrito por Ana Paula Godoy.


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2 Comentários

  1. Muito bom Ana Paula! Adoro textos, adoro as vírgulas e as palavras. Ainda mais se escritas sobre
    um assunto que toca lá no fundo do nosso coração, o cavalo! O grande protagonista.
    Parabéns! Continue escrevendo bastante.
    Beijos
    Regina Brissac

    • Obrigada Regina, fico feliz que você tenha gostado da história, que afinal, é parte da história de todos nós que amamos os cavalos e o esporte!
      Beijos, Ana Paula.

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